MOVIMENTO ESTUDANTIL LIBERTÁRIO NA LUTA CONTRA OS CORTES E A REFORMA

28 de maio | 19h | Sala 205 do EFI

No dia 15 de maio, estudantes e trabalhadoras da educação construíram uma forte Greve Nacional da Educação. Foram mais de um milhão de pessoas nas ruas de todo o país e muitas milhares tomando as ruas de Florianópolis. Na UFSC, as mobilizações são exemplo de que se inicia um novo momento de levante estudantil. Daqui pra frente, inclusive na greve geral de 14 de junho, precisamos fazer com que a brasa do dia 15 de maio vire uma enorme fogueira de arraiá! Afinal, é através da organização pela base e da ação direta que podemos derrotar o projeto de desmonte da educação pública e também de retirada de direitos, como o projeto da Reforma da Previdência!

A Coletiva Centospé convida todas e todos estudantes para uma conversa sobre como podemos atuar nas lutas de forma libertária através da organização coletiva. Atuamos na UFSC desde 2016, tendo por princípios: autonomia na luta social, autogestão e organização desde a base, anticapitalismo, combate às diferentes formas de opressões estruturais, ação direta, solidariedade de classe e autocrítica.

Vem trocar uma ideia com a gente, no dia 28 de maio às 19h, sobre as formas vencer os ataques dos de cima e avançar na luta por uma universidade popular!

LUTAR! CRIAR PODER POPULAR!

Mais fortes são os poderes do povo!

centospe@riseup.net

centospe.libertar.org

Dia 15 de maio marca o início de um novo ciclo de lutas pela base

Estudantes e trabalhadoras da educação por todo o país preparam um forte dia de luta em 15 de maio, data convocada para a Greve Nacional da Educação, que ganhou mais força após os violentos ataques do Governo Bolsonaro à educação pública nas últimas semanas. As mobilizações na UFSC são exemplo de que se inicia um novo momento de levante estudantil e da educação. Através da organização pela base e da ação direta podemos derrotar o projeto de desmonte da educação pública e a retirada de direitos!

O projeto neoliberal para a universidade pública

A resistência popular contra os cortes na educação e as tentativas de privatização não começam agora, nem mesmo têm início no Governo Bolsonaro. Estamos vivendo um momento específico, iniciado ainda em 2015 no Governo Dilma (PT), em que as verbas da universidade pública começam a ser diminuídas ou bloqueadas, levando à precarização e perda de direitos estudantis. É em 2015, no contexto da greve docente e de servidoras técnicas, que começa uma onda de assembleias estudantis e paralisações, contabilizando mais de 10 cursos em greve na UFSC. Desde então, a redução de investimentos na educação ano após ano é praticamente linear, um projeto de desmonte do setor público colocado em prática por Dilma, Temer e, agora, Bolsonaro.

É necessário entender o significado das medidas anunciadas recentemente. O panorama desse ano começou com muita perseguição política nas escolas e universidades; ataques do governo às ciências humanas e à ciência básica; propostas de militarização das escolas ou de precarização, como o incentivo ao ensino à distância; e restrição à democracia universitária na escolha de reitores por todo o país. Agora, nesse último mês, os bloqueios de 30% das verbas de custeio e investimento nas universidades, além do corte de milhares de bolsas de pós-graduação.

Essa é a verba que paga as contas de água, luz, parte da assistência estudantil e o salário das trabalhadoras terceirizadas, incluindo a limpeza e a segurança. Isso significa que, se não pudermos derrotar esses bloqueios, certamente haverá um número de demissões significativo dessas trabalhadoras, que já são as mais precarizadas da universidade, além da sobrecarga de trabalho para as que permanecerem. Sem reverter os bloqueios, haverá também cortes em nossas políticas de assistência, como as bolsas-permanência, auxílios para estudantes mães e aumento no preço do RU. Muitas das Bolsas Permanência do MEC, que atendem estudantes indígenas e quilombolas, já foram reduzidas. Esse é o significado das últimas decisões do Governo Bolsonaro no campo da educação: demissões em massa e o impedimento de qualquer política que ajude as estudantes pobres a entrar e permanecer na UFSC, em particular estudantes negras e indígenas.

A luta da educação é também a luta da classe trabalhadora pela previdência

Em todos esses anos, houve importantes lutas do movimento estudantil e da classe trabalhadora. Realizamos o maior movimento de ocupações da história em 2016, contra a PEC do teto de gastos, a Reforma do Ensino Médio, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a Escola Sem Partido. Em 2017, dois dias de Greve Geral (28 de abril e 30 de junho), com atos massivos e trancamento de vias por todas as grandes cidades do país, foram fundamentais para impedir o avanço do projeto Escola Sem Partido e, especialmente, da Reforma da Previdência que Temer não conseguiu votar. Nos últimos anos, foram os métodos da luta e ação direta que mostraram capacidade de vencer, com estudantes e trabalhadoras juntas!

Se a reforma de Temer não aguentou a força do povo na rua, agora a Reforma da Previdência do governo Bolsonaro é tema incontornável na luta em defesa da educação e precisa, por causa disso, ser pauta em todas as nossas assembleias. Quem deixa isso nítido é o próprio Governo Federal, quando utiliza a bloqueio de verbas como uma chantagem barata para defender a reforma, alegando que o contingenciamento pode ser revertido após a destruição da previdência.

A resistência contra a reforma da previdência merece centralidade por dois motivos. O primeiro é sua capacidade de contemplar as necessidades da totalidade da classe trabalhadora, em especial as pessoas mais pobres. Para além das centenas de ataques desse governo em áreas específicas, gerando focos de resistência mais isolados, é na luta contra a reforma da previdência dos banqueiros que todo o povo pode somar forças e gerar um movimento massivo. Ao mesmo tempo, o Governo Bolsonaro tem demonstrado incapacidade em coordenar as intrigas dos diferentes setores que o apoiaram (mercado financeiro, militares, lideranças evangélicas e extrema-direita olavista), em meio ao aumento do desemprego, da brutalidade estatal e da explosão de casos de corrupção. A perspectiva de aprovar a Reforma da Previdência, sonhada pelo mercado financeiro, setores patronais e a mídia burguesa, é a cola que mantém esse governo em pé nesse momento.

Pautada no modelo de capitalização, o qual rompe com o princípio da solidariedade na atual Previdência Social, a reforma abandona as trabalhadoras mais pobres à própria sorte. No Chile, onde esse modelo foi implementado, houve até mesmo um aumento nos suicídios de idosas pobres, que passaram a receber aposentadorias insuficientes para viver com dignidade. Além disso, a Reforma da Previdência ataca as trabalhadoras da educação pública de forma tripla: com o aumento de tempo de trabalho para todo o povo; com o aumento proporcionalmente maior para as mulheres, que são maioria nas salas de aula; e com as regras mais duras especificamente na aposentadoria das professoras. Velhinhas e velhinhos enfrentando longas jornadas em salas de aulas lotadas e cada vez mais precárias. Esse é o futuro que Paulo Guedes e Bolsonaro esperam para muitas de nós!

A mobilização na UFSC

A resposta estudantil da UFSC aos últimos anúncios do MEC veio com força. Após reuniões e mesmo um ato chamado em defesa das ciências humanas, atacadas pelo Governo Federal, o bloqueio de verbas destinadas às instituições federais e o corte de bolsas agiu como um estopim. Antes da ação das principais entidades sindicais e estudantis, assembleias já foram organizadas nas bases de alguns cursos, que se proliferaram de forma explosiva pela UFSC.

De fato, a listagem de todas as assembleias e paralisações deliberadas por curso se tornou tarefa quase impossível – só segunda-feira, dia 13 de maio, foram estimadas mais de 20 assembleias e reuniões. Uma mensagem que correu os grupos de whatsapp na noite desse dia contava 45 cursos que decidiram participar da greve. A Assembleia da Pós-Graduação teve quase 400 pessoas assinando presença. Para a Assembleia da Graduação, a expectativa é de mais de mil estudantes.

A categoria de servidoras técnicas também se uniu à paralisação por deliberação em assembleia. Em meio a esse contexto, de ataques gravíssimos e de unidade de ação do movimento popular, são lamentáveis as posturas da APUFSC, um dos sindicatos docentes atuantes na UFSC. O sindicato não convocou nenhuma assembleia docente, aderiu ao dia 15 de maio com apenas 30 minutos de paralisação e ainda buscou impedir a atuação do ANDES, o outro sindicato docente que historicamente tem se dedicado às lutas na universidade. Não há dúvidas que a defesa da UFSC e da educação pública passa, nesse momento, pela superação da posição imobilista da direção da APUFSC.

A Comissão Unificada de Mobilização, com participação de entidades de base, DCE e APG, junto com professoras e servidoras técnicas da base organizou um dia de atividades que envolve a Assembleia Geral da UFSC e uma marcha conjunta da universidade até o Centro, unificada com estudantes da UDESC. O ato no Centro, junto com as trabalhadoras da educação, promete reunir dezenas de milhares de pessoas. É o dia do grito tomar as ruas!

Lutar pela base e com ação direta

Tudo indica que o dia 15 de maio será histórico. Com a mobilização dos sindicatos da educação federal, estadual e municipais, além do movimento estudantil universitário e secundarista puxando assembleias massivas por todo o país, teremos as ruas lotadas como ainda não se viu neste ano, concentrando a indignação popular contra esse governo e o projeto neoliberal em curso nos últimos anos.

Ainda assim, mesmo com centenas de milhares ou mesmo milhões na rua, não alcançaremos nossas reivindicações em apenas um dia. Será necessário avançar na organização popular e nos métodos de luta. Propomos que cada curso, centro e entidade já convoque novas assembleias para a próxima semana, com uma ampla discussão estratégica sobre como fortalecer as lutas de forma crescente até o dia 14 de junho, quando temos o chamado de Greve Geral pelas centrais sindicais. No entanto, nesse momento é fundamental manter a organização pela base e as assembleias em cada local.

A história recente nos mostra que não podemos manter nossa capacidade de convocação e articulação restrita às centrais sindicais. Em 2017, no momento de maior fortalecimento das lutas, vimos a CUT e a CTB desistirem da organização do dia 30 de junho, segunda Greve Geral daquele ano, facilitando o caminho para a Reforma Trabalhista. É apenas a mobilização nas bases que garantimos a pressão e o constrangimento contra qualquer vacilação e oportunismo nas direções, para que não entreguem a luta do povo de bandeja. É através de ocupações, greves, piquetes e barricadas que vencemos nossas últimas batalhas, é com elas que venceremos as próximas!

CONTRA OS CORTES NA EDUCAÇÃO, GREVE GERAL É A SOLUÇÃO!

Coletiva Centospé,
14 de maio de 2019.
MAIS FORTES SÃO OS PODERES DO POVO!

Como resolver os problemas de segurança pública na UFSC (e por que é tão difícil aceitar a solução)

Terminamos o ano de 2018 falando sobre segurança pública, uma polêmica tanto nas universidades quanto nos demais espaços públicos. Na UFSC, a discussão retornou com as balas de borracha e bombas de gás usadas pela Polícia Militar na noite de 1º de novembro, exatamente um dia após o Ministério Público de Santa Catarina, a PM, a Secretaria Municipal de Segurança Pública e representantes da reitoria da UFSC terem realizado uma reunião para discutir medidas de segurança na região do Campus Trindade.

Não é de hoje que as medidas e os discursos sobre segurança pública na universidade são questionáveis. Esse tema tem precisado há anos de um debate mais amplo e aprofundado dentro da UFSC e em seu entorno. No momento, sentimos que isso passa por chamar atenção para uma questão que muitas pessoas tomam por ultrapassada: o que é, afinal, segurança pública?

O senso comum não nos salvará…

Hoje o termo segurança ativa em muitas pessoas um imaginário de furtos, assaltos e todo tipo de agressão física. Pensar em segurança pública a partir desse ponto é cair numa armadilha, pois significa que estar seguro em público é vencer uma queda de braço com indivíduos armados. Há quem abandone de vez a palavra “pública” e abrace a segurança privada, vendo como única solução, portanto, que cada indivíduo possa vencer esse combate portando seu próprio armamento. E há quem, desconfortável com essa proposta, clame pela presença de policiais, supostos aliados nesses confrontos.

É esse tipo de mentalidade que faz com que muitas ironizem, por exemplo, propostas de melhoria da iluminação do campus, vendo-as como bobagens ineficientes. “O que poderia uma lâmpada num poste contra uma arma?”, perguntam-se, cientes ou não de revisões sistemáticas e recomendações governamentais que indicam que, de fato, a iluminação pode ajudar. O que escapa ao senso comum é a inegável verdade de que “ganhar” ou “perder” no momento de um crime é uma ilusão, pois quando um crime ocorre já é tarde demais para pensar em segurança – a derrota já chegou para todo mundo. É preciso pensar como evitar essa situação em primeiro lugar, e para isso tanto a mentalidade justiceira quanto a policialesca não ajudam em nada.

Ainda que houvesse efetivo por parte da Polícia Militar para cobrir, por exemplo, os mais de um milhão de metros quadrados dos campi da capital catarinense sem se ausentar do resto da cidade, ambas as visões de segurança fracassam porque, como se preocupam em garantir que uma força repressora esteja presente na hora em que um “evento” acontece (principalmente ameaças a propriedades privadas), não se preocupam com as condições estruturais da sociedade que em grande medida condicionam esses eventos. Esse fechar de olhos para desigualdades faz com que não vejam o quanto aquilo que chamam de “segurança” é, na verdade, a segurança de algumas pessoas para a insegurança de outras.

Para quem vê na posse individual de armas uma solução, ainda que fossem amplamente permitidas, não seria qualquer estudante com bolsa permanência e isenção para os passes do RU que poderia comprar uma arma. E ainda que fosse, “estar segura” é andar pelo campus em constante tensão, pronta para atirar em outro ser humano potencialmente também armado? Como será que pertencentes às comunidades LGBTQI+ se sentiriam, com a taxa de crimes de ódio cometidos contra elas no país, estudando em uma universidade com armas de fogo por todos os lados? Poderíamos ter discussões políticas sobre assuntos sensíveis, em sala de aula e fora dela, sabendo que alguém pode ter consigo uma arma de fogo? Quantas se sentiriam seguras de falar o que pensam – e o que pensam estas pessoas que em maior medida se sentiriam seguras?

O mesmo vale para aquelas pessoas que veem na presença da polícia a panaceia para os males da universidade – sendo que ela mesma, uma das polícias que mais mata no mundo em um país racista, poderia representar uma grande ameaça à segurança de estudantes negras e pobres na universidade. O histórico do papel da PM na repressão aos movimentos estudantis também é muito facilmente esquecido mais de 30 anos depois do fim da ditadura civil-militar, mas não podemos esquecer do Levante do Bosque, episódio paradigmático de 2014 no campus Trindade que explicitou a forma violenta como as polícias agem contra estudantes (absolutamente ninguém ficou seguro naquele momento – incluindo as crianças do NDI – ou “ganhou” em segurança depois dele). A universidade, como espaço de livre pensamento e pesquisa, tem que poder contestar autoridades e desigualdades (fatores estes que, afinal, prejudicam o fazer científico). Agentes armados do Estado infiltrando-se a cada fenda das calçadas da UFSC não trarão segurança àquelas pessoas cujas ideias incomodam quem em última instância dá ordens para esses agentes, em qualquer nível governamental.

… como não tem feito no passado recente

No entanto, a visão policialesca parece ter predominado nas falas e atitudes das últimas administrações. Ainda no mesmo ano do Levante do Bosque, a reitora deu uma entrevista à rádio CBN afirmando que apoiava a realização do patrulhamento móvel pela PM, e mentiu ao afirmar que nenhuma comunidade da instituição se colocava contrária à entrada da PM nos campi. Em 2015, a reitoria realizou uma reunião com as polícias civil e militar a fim de “estreitar laços” e, em seguida, publicou um ofício reafirmando a posição contrária à “perturbação da ordem”. Em 2016, ocorreu nova reunião com as polícias para reforçar a determinação do Ministério Público Federal para que a UFSC exercesse um “controle mais rigoroso quando da constatação da realização de festas/eventos não autorizados no interior do campus, inclusive com solicitação de auxílio policial”.

Durante os protestos estudantis que ocorreram naquele ano, inclusive, contrários à EC95 (sobre o teto dos gastos públicos), à PEC 65 (sobre licenciamento ambiental), à reforma do Ensino Médio e à PEC ideologicamente chamada de “Escola sem partido”, havia constantes ameaças (veladas) de desocupar à força os prédios ocupados por estudantes. Em 2017, nos dias mais frios do inverno, a DESEG recolheu diversos itens pessoais de uma pessoa que vivia no Campus Trindade, como computador, celular, cobertas, roupas e até mesmo lonas e estruturas para montar uma barraca improvisada, que estavam ao lado do Centro Acadêmico de Biologia UFSC.

E no entanto o que mudou quando o assunto é segurança? Se mudou, mudou para melhor ou para pior? E, em cada um dos casos, para quem?

Essa pergunta, que traz as desigualdades de poder de volta ao centro da discussão, não poderia ser mais oportuna no irônico caso de uma reitoria que se surpreende com as ações policiais midiatizadas contra o falecido reitor Luiz Cancellier e demais servidoras, mas não é capaz de agir frente à repressão de autoridades de “segurança” contra outras pessoas que utilizam o espaço público da UFSC.

Uma segurança comunitária?

É preciso não só buscar abordagens mais produtivas, mas mais produtivas para todo mundo. Pensar na segurança a partir de cenários imaginários em que estaríamos inseguros – e os cenários de insegurança variam imensamente de pessoa para pessoa, de grupo para grupo – é pensar na segurança que deu errado; é fácil entender por que as pessoas desejam “heróis” (sê-los, ou tê-los por perto) que venham salvar o dia.

As pessoas se sentem (e estão) em segurança quando estão em comunidade – quando existe confiança e cuidado, o que geralmente leva tempo e esforço para construir. Essa construção não parte só de voluntarismo espontâneo, mas envolve também pensar questões estruturais das relações entre as pessoas, especialmente quando falamos de um local pelo qual transitam por dia mais pessoas que a população de uma pequena cidade. E para fazer isso, não ajuda o sonho de uma UFSC como um mundo à parte, que poderia viver em uma bolha de segurança diante do resto da sociedade.

Essa perspectiva isolacionista fica evidente na distância que a UFSC parece insistir em manter com as comunidades dos bairros vizinhos ao campus Trindade, que também utilizam os campus, seja para lazer, para ir à biblioteca, para acessar serviços como os Correios ou caixas eletrônicos, entre muitas outras coisas. Em 2013 foram instaladas cancelas nas entradas do campus Trindade, sem qualquer consulta à comunidade universitária e muito menos à comunidade externa. Ainda no mesmo ano, foi realizada uma reunião consultiva sobre segurança na UFSC, que teve protagonismo da Reitoria, da DESEG e da PM, sem avançar muito nas discussões com estudantes, TAEs, docentes e comunidades vizinhas ao campus Trindadde (sem falar nos demais campi). Vinte dias após o Levante do Bosque, foi realizada uma audiência pública sobre segurança na UFSC em que, mais uma vez, ficou evidente a falta de abertura para a comunidade externa nos espaços de participação e decisão. Na reunião do CUn do dia 4 de dezembro de 2018, o reitor Ubaldo afirmou ter escrito com o DCE uma minuta de portaria para a reativação do Fórum de Segurança da UFSC, baseada na portaria do fórum anterior (nº 271/GR/2001), que supostamente contemplava a participação de todas as categorias da comunidade universitária que “se fizessem representar” por membros de entidades universitárias (como o DCE, os sindicatos, etc.), mas excluía das decisões as pessoas que não se sentem representadas pelas entidades universitárias e, principalmente, excluía pessoas externas à universidade: moradoras de bairros vizinhos, e mesmo pessoas que utilizam os espaços universitários em todos os campi, como trabalhadoras e trabalhadores dos bares, dos correios, das empresas de limpeza e do RU. Representantes da Associação de estudantes de Pós-Graduação (APG) se posicionaram contrárias a essa composição pouco inclusiva do fórum, e também questionaram a inação da reitoria acerca dos fatos ocorridos no dia 1º de novembro, chamando atenção para o fato de que não se revelam as imagens captadas pelas mais de mil câmeras de segurança espalhadas pela UFSC. O reitor acabou adiando a proposta de reativar do Fórum de Segurança para este ano, resolvendo a discussão com a abertura de uma consulta pública por email, possibilitando o envio de sugestões à reitoria. A consulta, por enquanto, não foi aberta – o que poderia indicar um interesse em esfriar o debate.

É preciso que a UFSC se posicione diante da sociedade não como um espaço de privilégio, que deve se manter murado para se manter seguro, mas como um lugar onde podemos buscar segurança para todo mundo ao investigar as raízes das nossas divisões e violências, e também ao abrir-se em diálogo, ao nível local, para produzir convivências e construir comunidades. Em grande ou pequena escala, nas discussões que levamos para fora do espaço universitário até a forma como integramos todas as pessoas que com ele interagem, é preciso fazer o mesmo: construir uma situação em que, em meio a diversidades e pluralidades, as pessoas saibam que possam contar umas com as outras.

Por uma segurança horizontal

Uma das teorias mais aceitas para explicar por que uma melhor iluminação pública funciona para diminuir a criminalidade é que, onde há mais luz, há maior sensação de segurança – e portanto as pessoas usam mais os espaços, deixando umas às outras menos isoladas. Mais que isso, em muitos casos as pessoas sentem-se genuinamente mais gratas e satisfeitas com o lugar, tornando-se muito mais dispostas a evitar que algo de ruim aconteça com ele ou com as pessoas que por ele transitam. Não se trata de lâmpadas, realmente; trata-se de pessoas, e da construção de comunidades.

Na reunião do CUn que citamos anteriormente, a discussão foi mais uma vez esvaziada, principamente pelo posicionamento pouco democrático de alguns conselheiros e sua consequente má vontade: há quem não relacione a questão da segurança com a questão das festas, e muitos defendem que quem deveria decidir sobre a segurança pública é a DESEG e as polícias. Novamente vemos as velhas mentalidades sobre segurança ignorando uma concepção horizontal de segurança pública, entre as comunidades e para as comunidades, em que resolvemos nossos próprios problemas ao coordenarmos ações que atinjam a raiz dos problemas.

Na relativamente pequena escala dos espaços universitários, é preciso permitir e incentivar sua ocupação em prol de eventos que construam solidariedade, tornando-o mais proveitoso e inclusivo. Organizar confraternizações, lazer, festas e atividades culturais é parte integrante do Movimento Estudantil. As festas são fundamentais para a disputa da sociedade e da universidade, e além de colaborar a curto, médio e longo prazo com a segurança, significam a geração de renda para o movimento, a divulgação de estilos musicais e produção artística autoral fora dos meios comerciais, e o oferecimento autônomo da formação cultural que faz parte integrante da formação humanística e crítica que a universidade deve oferecer. E para além das questões estudantis, os campi da UFSC são espaços públicos específicos, que não devem ter cancelas nem qualquer tipo de restrição à entrada: podem e devem ser ocupados pela comunidade externa, para festas, para lazer, para acesso à biblioteca, aos bebedouros, aos banheiros, etc. Uma política de segurança pública deveria ser baseada na promoção de um senso de comunidade que vá além da atividade acadêmica, abarcando a ocupação viva dos espaços em comum, em vez de na repressão de qualquer iniciativa espontânea que, muitas vezes, foge à lógica capitalista de lazer.

O que as velhas formas de pensar a segurança pública que vimos acima têm em comum é um entendimento de que a universidade é feita de indivíduos-trabalhadores e estudantes-indivíduos-clientes, átomos num ambiente em que proteção significa a manutenção de ordem para algumas pessoas e exclusão, medo ou repressão para outras. A origem e a justificativa da autoridade policial está nessa desagregação social, resultado de uma sociedade em que as pessoas precisam competir por qualquer coisa e na qual os laços de solidariedade se desfazem pelo desuso. Se uma comunidade (universitária, de bairro, de um local de trabalho) precisa de algo e as pessoas envolvidas não se organizam direta e democraticamente para resolver os problemas, abre-se uma brecha para que a alternativa venha de fora, imposta por autoridades tirânicas e/ou ofertada por mercadores interesseiros. A imposição da autoridade nasce onde está enfraquecida a autonomia do povo.

Pensamos que o melhor caminho para encontrar uma alternativa à polícia passa por não silenciar a criatividade das pessoas que são excluídas dos debates e das decisões. É preciso que todas as pessoas envolvidas no problema da segurança possam se organizar e decidir sobre suas próprias demandas. Assim, não é tão estranho pensar em festas – ou a revitalização do Centro de Convivência, ou a melhoria da iluminação pública, ou o combate à terceirização, e assim por diante – como parte de uma política de segurança, considerando que elas levam à organização de uma outra noção de universidade. A outra parte, decisiva, é formar através dessas medidas a capacidade de responder eficiente e democraticamente às ameaças e aos problemas específicos que venham a surgir.

Como observamos acima, isso leva tempo. Exige esforço, comprometimento. A dificuldade fica mais evidente quando pensamos a questão na grande escala de entender que esses “problemas que virão a surgir” em nossos espaços estão relacionados a questões de maior alcance, que exigem portanto discussões e mobilizações muito maiores. É preciso falar sobre a desigualdade socioeconômica, a especulação imobiliária, a violência contra a mulher, os crimes de ódio, a moradia estudantil, o incentivo a espaços culturais, entre muitas outras coisas. São debates imensos, e necessários. A alternativa é acreditar nas velhas soluções que discutimos: saídas aparentemente mais fáceis, mas que nunca funcionaram.

Um debate urgente é o fim da polícia militar. A violência da PM na UFSC não começou semana passada, nem é consequência das últimas eleições brasileiras. Ela sempre aconteceu, pois faz parte da natureza da PM. No ano passado, foram muitas ações violentas da PM no campus; o episódio do dia 1º de novembro apenas ganhou mais dimensão. De qualquer modo, a curto prazo, é papel da Reitoria da UFSC impedir a entrada da PM nos campi. A exigência tem que ser feita à Reitoria nesses termos, pois ela é responsável pelo espaço. Se houve desrespeito da PM à autoridade da reitoria, cabe à UFSC lutar institucionalmente contra a invasão da PM; por outro lado, se sua autoridade simplesmente não foi usada para impedir a entrada da PM, que a comunidade universitária exija que o seja.

Não é com mais instrumentos repressivos como câmeras e perseguição a militantes e a movimentos sociais que construiremos um ambiente universitário sadio. Uma ideia, um começo, seria uma campanha sobre segurança na UFSC, construída junto às comunidades vizinhas, que ponha em pauta a entrada das polícias nos campi, tendo como horizonte a desmilitarização da polícia de modo geral. A segurança é um assunto transversal: enfrentar essa questão é uma das maiores chances que a comunidade universitária está tendo de se mostrar integrada à sociedade. Os próximos anos prometem um recrudescimento da repressão contra pobres, pessoas negras, LGBTQI+, pessoas com deficiência, povos originários, quilombolas; e nós, que defendemos que o povo tenha poder também na universidade, não podemos nos isolar nem delegar às autoridades o debate a as decisões sobre os nossos corpos. Enfrentemos o problema de frente, confiando na auto-organização e na construção de diálogos horizontais para conquistar a segurança que realmente precisamos ter.

Para o semestre que logo se iniciará, LUTA E ORGANIZAÇÃO!
MAIS FORTES SÃO OS PODERES DO POVO!

Coletiva Centospé,

11 de janeiro de 2019

Contra o governo de extrema direita, construir a resistência na APG UFSC

A APG-UFSC, entidade representativa de estudantes de pós-graduação em todos os campi, passou recentemente por processo eleitoral, elegendo a chapa única “Pra não lutar só”. Nós, da Coletiva Centospé, participamos do processo de construção da chapa, que se propõe a dar continuidade às atividades e ações da gestão anterior, “Quem tem coragem” (2017-2018), e buscamos neste texto trazer considerações sobre as lutas da pós-graduação no último ano e a importância de seguir construindo esta entidade a partir de agora.

No período do último ano, estudantes de pós-graduação na UFSC demonstraram uma capacidade de mobilização sem precedentes no passado recente. Com participação central da APG, vimos a organização de diferentes campanhas e mobilizações: defendendo e avançando na implementação de ações afirmativas em todos os Programas da Pós-Graduação para estudantes negras e negros, indígenas e com deficiências; organizando uma grande assembleia e atividades contra a ameaça de cortes de bolsas CAPES; ajudando a construir o I Fórum de Saúde Mental da Comunidade UFSC; lutando pela democratização do processo eleitoral da Reitoria; pressionando a direção privatista da FAPESC em defesa do investimento em educação, ciência e tecnologia públicas; e puxando uma campanha nacional em defesa da Petrobrás.

Além disso, com sua participação nas instâncias deliberativas da Universidade (tais como o Conselho Universitário, a Câmara de Pós-Graduação e o Conselho de Curadores), lutou contra a cobrança de multas em caso de atraso na entrega de teses e dissertações; e para que a Reitoria se posicionasse institucionalmente contra os cortes de bolsas, contra a Emenda Constitucional 95, contra as cobranças na pós-graduação lato sensu e em defesa das ações afirmativas em toda a pós-graduação. Por fim, a mobilização da pós e a APG estiveram também em articulação com as lutas sociais fora da Universidade, repudiando o projeto de lei aprovado em Florianópolis que permite a contratação de Organizações Sociais (OS) para a gestão de serviços de saúde e educação e somando nos atos de rua da categoria.

Acreditamos que isso não surge por acaso, mas como necessidade e reflexo do momento que vivemos. Em 2018, a conjuntura política local e nacional revelou um fortalecimento do autoritarismo e uma alavancada dos projetos neoliberais, preparando o terreno para o ano que vem. Recentemente, soubemos que o Ministério da Fazenda fez um levantamento de receita que poderia ser arrecadada com a cobranças nas Universidades Federais; que o próximo Ministro da Educação defende a ditadura civil-militar e a Lei da Mordaça (ideologicamente chamada por seus defensores de Escola Sem Partido), além de ter questionado a democratização do ensino superior; e que o futuro Ministro da Casa Civil defende que o MEC repasse menos dinheiro para o ensino superior, coisa que já vem ocorrendo progressivamente desde 2014. Ou seja, vivemos uma ofensiva violenta que tentar instituir a cobrança no ensino superior, começando pela pós-graduação, ao mesmo tempo em que realiza uma asfixia financeira nas instituições públicas, que correm riscos de fechar portas ou ser privatizadas, enquanto toda iniciativa de formação crítica ou vinculada aos movimentos sociais e demandas populares será perseguida.

Portanto, quem tem que resistir somos nós, por meio da organização estudantil em sintonia com outras lutas sociais. E é por isso que nos colocamos novamente junto com demais estudantes para construir uma nova gestão da APG, valorizando sempre a autogestão e a construção pela base, numa perspectiva antiautoritária, anticapitalista e contrária a qualquer forma de opressão.

Em 2018 ficou evidente, por meio de censura a manifestações antifascistas nas universidades, que a repressão não precisa mais de tanta dissimulação, e o ano de 2019 não promete mais diplomacia. Além de manter vivas e cada vez mais fortes as lutas realizadas no último ano, outras questões importantes deverão ser enfrentadas pela nova gestão da APG, como o aumento da presença da extrema-direita, das polícias e da perseguição política nos espaços universitários. São debates que permeiam todo o cenário nacional e que precisam ser pautados e enfrentados também no ambiente estudantil.

Dada a realidade de que a maioria dos programas não possuem assembleias estudantis regulares nem uma prática de mobilização, a APG tem servido como um ponto de apoio, encontro, mobilização e acúmulo de forças para as necessárias lutas na pós-gradução da UFSC, em diferentes programas e Centros. Convidamos as pós-graduandas e pós-graduandos da UFSC para ajudar a construir e fortalecer tanto a mobilização em seus programas quanto na APG, que vem se construindo como uma entidade aberta, crítica, em formação contínua e capaz de realizar unidade na luta, a partir do que consideramos ser uma cultura de autogestão e democracia direta.

Ninguém vai lutar só!

A pós-graduação vai resistir!

Coletiva Centospé,
24 de dezembro de 2018.

Eleições APG-UFSC para a gestão 2018-2019

Ao final do processo eleitoral ocorrido entre 12 de outubro e 7 de novembro de 2018, a comissão eleitoral das eleições para a gestão 2018-2019 da Associação de Pós-Graduandos da UFSC (APG-UFSC) divulgou seu resultado. Foram registrados 340 votos válidos e 13 votos inválidos:

Fonte: http://apg.ufsc.br/2018/11/07/resultado-do-processo-eleitoral-apg-ufsc-2018-2019/

Mensagem da chapa eleita “Pra não lutar só”, publicada em 9 de novembro de 2018:

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“A Chapa 1 “Pra não lutar só” agradece a todas as pessoas que participaram de nossa campanha e nos apoiaram em cada um dos 303 votos de confiança depositados para a nova gestão da APG-UFSC!

A posse da nova gestão será feita no dia 13 de novembro, às 14h na sede da APG, e a partir de então vocês poderão acompanhar a mobilização da nova gestão pela página oficial da APG UFSC. Estaremos sempre de portas abertas para todas e todos que desejarem se juntar a nós na construção de nossa entidade e das lutas na pós-graduação neste próximo e intenso ciclo de 2018-2019.

Pra combater os retrocessos, pra construir nosso projeto de sociedade, pra buscar horizontes comuns, precisamos nos unir. E pra não lutar só, convidamos todas e todos a se juntarem a nós!”

Lista de apoiadores (publicada e atualizada neste link):

Alessandra Jungs de Almeida (PPGRI)
Ana Claudia Maba (REMULTISF)
Amália Cruz (PPGE)
Ameg Dalpiaz (PPGCR)
Ana Martina Baron Engerroff (PPGSP)
Ana Paula Tridapalli de Almeida (PPGECT)
Augusto César Spadaccia Asciutti (PPGBCD)
Barbara Leone Silva (PPGN)
Bruna Peixer (REMULTISF)
Bruna Veiga de Moraes (PPGSS)
Carlos André dos Santos (PPGSP)
Carolina de Castro Nascimento (PPGSP)
Cristina Belincanta (PPGEAN)
Denis Berte Salvia (PPGSP)
Felipe Silveira de Souza Schneider (PPGQMC)
Fernanda de Aragão Mikolaiczyk (PPGE)
Fernando Santos (PPGE)
Flavia Aline de Oliveira (PPGSP)
Frandor Marc Machado (PPGI)
Gabriel Basso de Figueiredo (PPGRI)
Gabriela Santos Pedroso (PPGSC)
Gabriela Bampi (REMULTISF)
Guilherme Filipe Andrade dos Santos (PPGD)
Guilherme Wagner (PPGECT)
Hiago Mendes Guimarães (PPGFIL)
Igor Luiz Rodrigues da Silva (PPGAS)
Jennifer Nascimento Pereira (PPGE)
João Pedro Vazquez (PPGSP)
Júlia Loose (PPGRI)
Karine Rossi Pereira (PPGFIL)
Lara Beatriz Fuck (PPGE)
Larissa Dalpaz (PPGECO)
Larissa do Livramento Pereira (PPGE)
Leonardo Lima Günther (PPGCIN)
Luana do Rocio Taborda (PPGSP)
Luis Carlos Nunes Vieira de Vieira (PPGSC)
Luiz Felipe Souza Barros de Paiva (PPGE)
Mariana Barbosa de Amorim (PPGECT)
Mariana de Andrade Wagner (PPGFAP)
Mariana Guerino (PPGE)
Marcia Anita Donzelli (PPGE)
Myrian Vasques Oyarzabal (PPGET)
Paulo Henrique Pappen (PPGET)
Peterson Roberto da Silva (PPGSP)
Priscilla Batista da Silva (PPGD)
Raíza Padilha Scanavaca (PPGECT)
Renata Flores (PPGE)
Robson Rodrigues Carvalho (PPGFIL)
Rodrigo Otávio Moretti Pires (PPGSP)
Sérgio Leite Barbosa (PPGLit)
Thamyres Corrêa Barbosa (PPGSC)
Thiago Salgado Vaz de Lima (PPGE)
Tom Claudino dos Santos (PPGRI)
Victor Calejon (PPGG)
Vilmarise Bobato Gramowski (PPGECT)
Yasmim Yonekura (PPGI)
Zeno Carlos Tesser Junior (PPGSC)
Barbara Leone Silva (PPGN)

Estudantes da UFSC contra a extrema-direita

No início da semana passada, avaliamos que existia “uma grande mobilização começando na UFSC contra a extrema-direita, com indícios de que pode tomar a proporção das maiores lutas de nossa história“.

Nessa semana que passou, perdemos as contas da quantidade de assembleias estudantis realizadas na UFSC. Nesse momento, temos pelo menos nove paralisações (Pedagogia, Psicologia, Pós-Graduação em Educação, Filosofia, Pós-Graduação em Filosofia, Ciências Biológicas, Cinema, Ciências Sociais e Arquitetura), em cinco Centros diferentes, todas elas com suas próprias programações de debates e atividades. Outros cursos ainda tiraram dias de paralisação, como Design e Animação. Na quarta-feira, uma plenária no CFH lotou os três andares do prédio de aulas. Na quinta, a Assembleia Geral de Estudantes da UFSC reuniu 975 estudantes que fizeram credenciamento, além de dezenas ou centenas de pós-graduandos e demais pessoas que participaram da assembleia.

No texto publicado no início da semana, elencamos argumentos para manter a pauta em torno do #EleNão e do combate à extrema-direita, ao invés de centrar esforços na campanha eleitoral de Haddad. Entre eles, a importância de agregar um movimento de massas que inclua toda as críticas feitas ao PT pela esquerda; entender que Bolsonaro é apenas uma liderança de um movimento de extrema-direita maior, que envolve interesses de diversos atores; e por fim não cair na ilusão de que a extrema-direita pode ser derrotada através das urnas, mas enxergar que essa tarefa exigirá nossa articulação e luta para além do calendário eleitoral.

Na Assembleia Geral, prevaleceu um posicionamento de apoio ao candidato Haddad, mas vários dos cursos que estão em luta mantiveram uma posição de independência e de horizonte para além do momento eleitoral. A Assembleia também tirou posições importantes para a articulação dos cursos em luta, a formação de um comitê de autodefesa, a paralisação geral de um dia na sexta (26/10) e a convocação de outra Assembleia para o início do ano que vem, independente de quem ganhar as eleições.

Um dos debates fundamentais nesse momento é a decisão por realizar as paralisações de curso ou não.

Acompanhamos, durante essa semana, três formas de crítica às paralisações, por supostamente promover mais ataques da extrema-direita; por serem usadas para deslegitimar a universidade pública; ou porque a necessidade é de mobilização para fora do meio universitário. Ainda assim, consideramos que as paralisações são instrumentos fundamentais nesse momento.

Entendemos, como argumentaram as estudantes de Filosofia, que paralisar não é sinônimo de parar. Estamos em paralisações para agir, inclusive fora dos muros da universidade. Os dias em que ficamos sem aulas são um momento de intenso aprendizado, em que buscamos interpretar coletivamente a realidade a nossa volta e pensamos como intervir nela. 

No fim, não é por outro motivo que a universidade é mantida pelo conjunto da sociedade. Ela forma profissionais, também, mas tem uma tarefa muito maior, que é mobilizar ensino, pesquisa e extensão para compreender os principais dilemas da sociedade e sugerir caminhos. Na encruzilhada em que nos encontramos, entre a luta social ou a barbárie, o papel social das estudantes e da própria universidade é tomar posição!

Nossa ação será atacada por nossos adversários seja ela qual for – e não podemos acreditar que nosso silêncio trará qualquer tipo de conquista. Se temos uma universidade pública hoje, é porque ousamos enfrentar os interesses de mercado, mesmo contra a crítica das elites ou a repressão política. Nesse momento de levante da extrema-direita, não podemos achar que passaremos despercebidas. O projeto de educação deles já está definido e muito bem divulgado: pretendem privatizar toda a educação pública, impedir a organização sindical e vetar qualquer tipo de ensino, pesquisa e extensão de caráter transformador ou vinculados aos movimentos sociais. Do nosso lado, só podemos escolher se haverá resistência a eles ou não.

No limite, a única garantia real de que impediremos a privatização de nossos bens comuns – ou de que manteremos nossas liberdades políticas frente ao avanço autoritário – é nossa capacidade de organizar uma greve geral no momento necessário. Aquilo que fazemos hoje é tanto uma demonstração de força, quanto um acúmulo para a próxima etapa da luta. Após um ano sem grandes mobilizações na Universidade, muitas estudantes participaram de sua primeira assembleia nessa última semana e se tornaram companheiras, ombro a ombro na resistência. Nosso aprendizado coletivo é que dirá se teremos capacidade de responder ao que o momento histórico exigir.

#EleNão!
PARA DERROTAR A EXTREMA-DIREITA, ORGANIZAÇÃO E LUTA!
MAIS FORTES SÃO OS PODERES DO POVO!

Coletiva Centospé
Florianópolis, 21 de outubro de 2018

 

Combater a extrema-direita para além das urnas

Existe uma grande mobilização começando na UFSC contra a extrema-direita, com indícios de que pode tomar a proporção das maiores lutas de nossa história, como as ocupações de 2016.

A última semana começou na UFSC com reuniões organizadas por centenas de estudantes de diferentes cursos e centros. Na segunda-feira (08 de outubro) ocorreram espaços amplos de discussão na Arquitetura, no CED e no CCE, inclusive alguns deles puxados por fora das organizações ou entidades. Em assembleia na quarta-feira (10), as estudantes de Pedagogia decidiram paralisar as atividades do curso até o dia 28 e na quinta-feira (11) as estudantes de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UFSC) também anunciaram paralisação. Uma reunião do Conselho de Entidades de Base (CEB) foi convocada para segunda-feira (15) às 12h e vários Centros Acadêmicos já convocaram assembleias para essa semana que se inicia. Além disso, foram criados diferentes grupos de Whatsapp para articular ações, incluindo um chamado à construção de uma Frente Antifascista UFSC, com participação de estudantes, servidoras técnicas e docentes. É a hora de mostrar a indiginação das estudantes contra um projeto racista, autoritário, saudosista da ditadura civil-militar e ultraliberal que ameaça o povo brasileiro e demais povos oprimidos em todo o mundo.

Fora da UFSC, já temos algumas datas marcadas para a resistência. Na segunda-feira (15), às 16h, acontece na Lagoa um cortejo em memória ao Mestre Moa do Katendê, que foi morto por um eleitor de Bolsonaro na Bahia, após uma vida inteira de dedicação para a cultura negra. No dia 20, um ato foi convocado pelas mulheres a partir da mesma articulação do movimento #EleNão, que realizou uma das maiores manifestações da história de Florianópolis duas semanas atrás.

O OBJETIVO DE NOSSA LUTA

O movimento #EleNão surgiu a partir da digna raiva das mulheres com o projeto de sociedade representado por Jair Bolsonaro. Rapidamente, conseguiu mobilizar milhões de mulheres em todo o país, colocando nas ruas uma ação de massas em que estavam juntas uma maioria de mulheres independentes de partidos e os setores mais combativos, atuantes nas lutas sociais dos últimos anos. Apesar da grande influência desse levante nas mobilizações que estão sendo feitas agora, muitas iniciativas estão canalizando toda essa energia em uma campanha eleitoral por Fernando Haddad. Consideramos que esse não é o caminho para as lutas que virão.

Uma mobilização em defesa do candidato Haddad falha ao identificar nosso inimigo apenas como sendo o Bolsonaro. Por trás dessa liderança lamentável, existe um projeto de sociedade apoiado por amplos setores das Forças Armadas e das polícias, por interesses privatistas do mercado financeiro internacional, pelas intenções imperialistas dos EUA na América Latina, além de parte do Judiciário, da grande mídia e de algumas das maiores lideranças religiosas do país. Esses setores conseguiram o voto de 1/3 da população brasileira porque estão há décadas fazendo seu trabalho de base, circulando opinião política e produzindo valores sociais contrários às nossas liberdades de ser e existir, valores de ódio a negros, indígenas, quilombolas, pobres, imigrantes, feministas e tudo que representa, em sua visão, a esquerda e o socialismo. Muitas dessas pessoas estão dispostas a violentar quem tem visões políticas diferentes das suas. Temos que ressaltar que isso não se resolve nas urnas.

Além disso, amplos setores populares não se identificam com o Partido dos Trabalhadores (PT), não apenas pelos argumentos utilizados pela direita, mas também pelos cortes de direitos trabalhistas, pela defesa do agronegócio, pelas mega-obras que trouxeram despejos e destruição ambiental, pelo forte crescimento do encarceramento e morte do povo negro, pela repressão às lutas sociais, entre muitos outros motivos. Por isso, sabemos que uma campanha contra a extrema-direita pode envolver muito mais gente do que uma campanha pró-Haddad ou apenas de horizonte eleitoral.

PROPOSTAS PARA A MOBILIZAÇÃO ESTUDANTIL

A ação estudantil na UFSC deve pautar as paralisações por cursos para formar uma forte mobilização contra a extrema-direita. Ao organizar assembleias, paralisar nossas aulas e promover espaços de discussão, conseguimos tempo para interpretar coletivamente o momento que vivemos e força para agir. Nossas principais tarefas do momento envolvem produzir material, realizar ações de propaganda, criar canais de comunicação entre todas e todos que estão na luta, fortalecer os movimentos sociais e os espaços de resistência que já existem, tomar as ruas em atos e organizar grupos de autodefesa contra a violência que tem sido utilizada pela extrema-direita.

Esse momento histórico exige de nós formas decididas de agir e capazes de responder à altura do risco que corremos. Portanto, durante essas semanas se trata de organização e luta para derrotar a extrema-direita, apostando na ação direta e coletiva como formas de resistir.

Não precisamos e não queremos ficar a reboque da tática do PT. Nossa mobilização também constrói a derrota eleitoral de Bolsonaro, mas precisamos de muito mais do que isso para vencer. O caminho da conciliação com o grande empresariado, com a mídia corporativa, com os filhotes da ditadura civil-militar e com as lideranças religiosas conservadoras já se mostrou inviável para impedir a barbárie que se aproxima agora. É na luta travada hoje, seja na UFSC ou nos demais espaços, que encontramos a base para construir um novo projeto de sociedade a favor do povo, das classes oprimidas. A resistência será mais forte se atuar com independência. Convidamos todas e todos estudantes da UFSC a construir uma forte mobilização de base para enfrentar as ações de ódio, o discurso de extermínio, assim como as medidas neoliberais que ameaçam a Universidade pública. A extrema-direita não vai ser derrotada pelas urnas, mas pela organização popular!

#EleNão!
PARA DERROTAR A EXTREMA-DIREITA, ORGANIZAÇÃO E LUTA!
MAIS FORTES SÃO OS PODERES DO POVO!

Coletiva Centospé,
Florianópolis, 14 de outubro de 2018

Eleitores do Bolsonaro agridem uma estudante da UFSC

Na última quinta-feira, dia 11 de outubro, uma de nossas militantes foi agredida por dois eleitores de Bolsonaro nas proximidades da UFSC. Ela pedia carona na entrada do Córrego Grande, na esquina do Restaurante Dona Benta, onde entrou no carro (Corsa prata, placa não identificada) e seguiu no sentido Lagoa da Conceição, por volta das 18h40. Eram dois jovens brancos, ambos com aproximadamente 27 anos de idade, por volta de 1,75 e barba comprida com cabelos escuros, estilo coque samurai

Depois de rodarem alguns minutos, os agressores perguntaram se ela havia votado no Bolsonaro. Ao dizer que não havia votado e que não concorda com o que o candidato representa, eles a xingaram com violência, inclusive enquanto ela afirmava que também não votava no PT. Após isso, eles a arremessaram com violência para fora do carro, nesse momento parado, fazendo com que o impacto rasgasse sua calça na região dos joelhos e machucasse essa região, assim como as mãos.

Sabemos que, assim como dezenas de outras histórias de violência realizadas por defensores de Bolsonaro, essa pode ser respondida com descrédito e informações falsas. Essa ação sistemática de negação serve apenas para aqueles que não querem acreditar ou admitir a violência legitimada pelos discursos desse candidato. A verdade é que os discursos de sua campanha estimulam o ódio e o extermínio.

Iniciativas de mapeamento da violência dos eleitores de Bolsonaro indicam dezenas de casos por todo o país (aqui, aqui, aqui e aqui), como o assassinato do Mestre Moa do Katendê na primeira noite pós primeiro turno, representante da cultura negra e popular do país. Muitas e muitos de nós já acompanhamos de perto essa violência, que vem atingindo pessoas próximas a nós.

Chamamos todas e todos para terem cuidado. Militantes de esquerda, feministas, todas as pessoas LGBTI+, todo o povo negro, indígena, imigrantes ou qualquer pessoa que se oponha a Bolsonaro. Porém, mais do que cuidado, recomendamos força. Precisamos construir redes de apoio e grupos para práticas de autodefesa, nos mantendo de pé a partir da coletividade. Não iremos nos calar e nem vamos nos esconder! Cada ameaça e cada violência da extrema-direita será respondida com mais disposição para a luta, mais vontade de tomar as ruas, mais dedicação para a organização popular.

#EleNão!

PARA DERROTAR A EXTREMA-DIREITA, ORGANIZAÇÃO E LUTA!
MAIS FORTES SÃO OS PODERES DO POVO!

Coletiva Centospé,
Florianópolis, 14 de outubro de 2018.

Posicionamento da APG-UFSC contra a cobrança de mensalidade na Pós-Graduação Lato Sensu

Texto publicado na página da APG-UFSC em 10/10/2018.

“A proposta de oferecer cursos de pós-graduação lato sensu com mensalidades na UFSC foi liberada por decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), seguindo decisão tomada no Supremo Tribunal Federal no ano passado. A possibilidade de cobrança foi reivindicada pela própria Universidade.

A APG UFSC considera que a cobrança na pós lato sensu representa um ataque ao princípio de Universidade pública, abrindo brechas para as intenções de cobrança em toda a pós-graduação e graduação, além da privatização da Universidade. O financiamento da UFSC deve ser 100% público e estatal, oferecendo educação de qualidade acessível para a classe trabalhadora e aos mais pobres. Qualquer tipo de cobrança é uma forma de elitização da Universidade e um desvio da sua função social.

Exigimos que o reitor Ubaldo Balthazar respeite o compromisso assumido em 10/08/2018, quando assinou a Carta de Reivindicações aprovada em Assembleia Geral da Pós-Graduação da UFSC, e se posicione contrário à oferta de qualquer curso pago na Universidade!”

Boletim da APG – outubro/2018

Em 10 de outubro de 2018 a gestão “Quem tem coragem” da Associação de Pós-Graduandos da UFSC (APG-UFSC) publicou seu Boletim final da gestão 2017-2018. O boletim está estruturado em artigos que discutem questões da pós-graduação, boa parte deles ligados a textos produzidos pela entidade no decorrer do ano de gestão, e em notas que divulgam algumas das ações realizadas pelo movimento estudantil da pós-graduação em defesa de uma educação pública, gratuita, de qualidade e radicalmente democrática.

Clique na imagem para acessar o Boletim